quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

3 - A MIGRAÇÃO SUÍÇA DE 1819 - MOTIVAÇÕES LUSO-BRASILEIRAS


No Brasil, desde meados do século XVIII já se anteviam os contornos do aparato ideológico que desaguaria quase cem anos após na migração européia. Em um trabalho formulado em 1753, o padre jesuíta Ribeiro da Rocha
[1], talvez o primeiro intelectual a se preocupar especificamente com a escravidão, alertava sobre os, para ele, temíveis "domésticos-inimigos", no caso os cativos cuja população crescia ano após ano, mormente pelo tráfico constante.
As preocupações explicitadas pelos teóricos que o seguiram, transcendiam também a mera administração do conflito inerente a polarização senhor-escravo, e desaguavam na exigüidade de brancos frente a fabulosa onda negra, incluindo-se entre estes o grande número de alforriados. Ainda assim, os primeiros indivíduos que abordam explicitamente a questão do negro no Brasil não pregam ainda a solução imigracionista, limitando-se a acentuar os perigos originados da disparidade numérica entre dominados e dominadores, questionando-se sobre o que fazer em uma suposta e posterior emancipação. Tais reflexões, surgidas em uma sociedade que apenas iniciava sua trajetória de colônia para país independente, seriam influenciadas pelo crescente medo suscitado ante as revoltas escravas, notadamente a bem sucedida rebelião de São Domingos, iniciada em finais do século XVIII, a qual culminaria na independência do Haiti em 1804 e na conseqüente subversão das relações entre antigos senhores e escravos, na ilha.
Os textos emancipacionistas de então, longe de expressar uma repulsa ao modelo escravista pelo que continha de injusto, prendiam-se aos temores quanto a segurança pessoal da classe dominante "pela multiplicação indefinida de uma população heterogênea inimiga da classe livre"
[2], bem como, abordavam de maneira surpreendentemente crua questões como a do sangramento de divisas ao qual estava exposto o país pela compra no exterior daqueles que "viveriam apenas o curto espaço de oito a dez anos"[3]. Opunha-se, pois, a maioria destes teóricos, ao tráfico negreiro, bem como procuravam "construir" uma nacionalidade através de postulados nos quais "recuperariam" as populações pobres e marginalizadas (índios, negros emancipados e brancos pobres) para, sob severa vigilância e normatização virem estes a se tornar produtivos segundo a ótica e para a classe dominante.
Gradualmente esta posição, no que tange ao aproveitamento predominante do elemento nativo e da população já existente modifica-se, notadamente com a "cientificização" por parte principalmente de intelectuais europeus, da suposta inferioridade racial do negro e do índio. Desnecessário afirmar que os lugares destinados ao progresso na estratificação pretendida, correspondia aos brancos entre os quais figurava com destaque a decantada "raça saxonica"
[4].
Cabe naturalmente aqui uma pequena ressalva e o que hoje se nos parece cristalino, posto que nos baseamos em fatos já ocorridos, não terá sido certamente um caminho único e sem variáveis, tampouco linear, mas sujeito a avanços e recuos. Na verdade, o triunfo da corrente emigracionista somente ocorreria a partir da segunda metade do século XIX, sendo evidente, porém, que os fantasmas que provocaram as mudanças tal como ocorreram, já de muitos anos habitavam o imaginário das elites e desta forma podemos considerar a migração suíça para Nova Friburgo, como o ensaio de uma tendência que se firmaria a partir de então.
Para Portugal, aceitar a migração estrangeira para o Brasil nos primeiros anos do século XIX, implicava na abolição das restrições ainda em vigor. Em arrastada decadência e zeloso de seus domínios ultramarinos, o reino português entendia o estabelecimento de estrangeiros em sua porção da América como grave ameaça ao pacto colonial e mesmo a posse efetiva do território. A fuga em 1808 da dinastia Bragança em direção ao Brasil, acompanhada por um séquito de militares, nobres palacianos, burocratas e religiosos, comprometerá toda a cristalizada lógica na qual repousava a política lusitana. Portanto, a necessidade de se ver o Brasil não mais como colônia, mas como virtual metrópole, com cujos problemas haveriam de conviver seus expatriados dirigentes por tempo indeterminado, bem como a dependência desta mesma classe aos aliados britânicos tornarão imperativas soluções que a modorra palaciana de Lisboa, tranqüilizadoramente longe, pudera até então postergar. O país desta forma experimentava também parte dos ventos convulsionados de uma Europa pós-revolução francesa e não bastando as guerras napoleônicas, tinham as elites, aparentemente a salvo na América, que estremecer ante o que se lhes afigurava como a ameaça do negro.
A transferência da corte portuguesa para o Brasil, exerceria, portanto, o papel de catalizador de um longo processo, no qual o estado nacional deveria ser edificado sob a égide política, étnica e cultural européia, cujos dirigentes, uma vez deste lado do Atlântico, constatariam ser a população branca, insuficiente, sob vários aspectos, para conduzir o país pelas sendas que o levariam a ser o “arbitro” do mundo. Uma vez decretado o colapso do colonialismo tradicional, restava a remoção gradual dos éditos proibitivos, inserindo-se em tal contexto o estímulo à entrada dos açorianos e a permissão para que estrangeiros tivessem acesso a terra. Objetivava-se em curto prazo, não só o incremento da produção de gêneros alimentícios, bem como a ampliação do mercado interno.
Quando, pois, Sebastien-Nicolas Gachet, chegou ao Brasil trazendo no alforge a proposta de uma colonização helvética, na qual ele próprio e seu sócio capitalista Jerome Brémond
[5] (francês e realista fanático) esperavam auferir grandes somas e uma série de vantagens comerciais, o cenário na Corte do Rio de Janeiro não poderia ser mais propício. Estava, pois, aberto o caminho que levaria ao deslocamento de mais de dois mil indivíduos de seus cantões de origem, atraídos por mirabolantes propagandas e sub-reptícias articulações entre Gachet e Brémond, cujo trajeto e assentamento custaria a bagatela de mais de quinhentas vidas.


[1] Azevedo, Celia M. M. de .Onda Negra, Medo Branco. Paz e Terra
[2] Idem
[3] Idem
[4] Idem
[5] Segundo Benoît de Diesbach-Belleroche, Jean-Baptiste Jérôme Brémond, dito “cadete”, nasceu em Brignoles (Var, França) em 08/02/1760 e faleceu em Semsales, Fribourg, aos 10/11/1839. Era filho de Jean-François Brémond, “marchand de draps” em Brignoles, e de Elisabeth Saurin. Burguês de Progens em 06/03/1829 e de Grattavache em 28/03/1829, deixara a França durante a Revolução, refugiando-se em Chavannes près La Neuveville (Suíça) e depois em Neuchâtel. Em 1796 adquiriria a fabrica de vidros e as minas de Semsales. Foi também cônsul de Espanha e de Portugal e Algarves na Suíça. Casou-se em 1804 com Salomé Lugeon, de Chevilly, nascida em Nyon, Suíça.

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